Reflexão sobre o Documentário Português


Não devemos perder de vista a renovação inigualável que o documentário de criação português sofreu. Neste sentido, este é um período primordial da nossa cinematografia. Em Portugal nunca existiu uma tradição vincada do género documental, mas podemos hoje observar a existência de uma plataforma de orientação que tem ajudado a criar um lugar para o documentário na História do Cinema Português. O nascimento do documentário nacional tem lugar marcado na história, através do primeiro plano documental, nos anos 20, da saída dos operários da fábrica Nacional no Porto, tirando da palavra documentário a sua riqueza e o seu sentido total: um plano, uma intenção, um ritmo, uma decisão, a essência do cinema. Com o decorrer dos anos, o documentário português foi perdendo interesse, tornando-se muitas vezes num veículo de propaganda. Foi a geração de 60 que dignificou o documentário em Portugal, utilizando novos métodos de produção e realização, bem como técnicas inovadoras, influenciadas, sobretudo, pela aprendizagem nas escolas de cinema estrangeiras e pelo contacto directo com outros olhares e formas de registar e interpretar a realidade. Vários filmes surgem conduzidos pelos realizadores Fernando Lopes, António Macedo, Alfredo Tropa, Faria de Almeida, Rui Simões, António Campos, António Damião, F. Costa, António Pedro Vasconcelos, Carlos Vilardebó, António Reis, Seixas Santos, etc. Com o 25 de Abril de 1974, sem censura e com o apoio do Instituto Português do Cinema (IPC) e da Rádio Televisão Portuguesa (RTP), o documentário português conheceu uma nova fase, sobretudo, com o chamado "cinema de intervenção", que permitiu o aparecimento de novas pessoas a fazerem este género de cinema: entrevistas em directo, ilustradas por aspectos humanos envolvidos no problema social ou político em análise. Um dia fui convidado a criar o programa pedagógico para a Cadeira de Cinema Documental da Escola Superior de Teatro e Cinema, e encontrei no livro Cinema Documental de Manuel Faria de Almeida, datado de 1982, uma passagem que se prende com o início da minha reflexão: Se as «arrancadas» são cíclicas, qualquer dia surgirá nova revitalização do género documental. Penso que "essa nova" fase se começou a desenhar no início de 1996, através da vontade invisível de se falar, discutir, entender e defender o documentário. Muito embrionariamente, nascia a terceira fase do documentário português. Para tal contribuiu a concentração de energias de criadores e técnicos, com origens tão diferentes como cinema, antropologia, etnologia, educação, sociologia, vídeo, etc; energias essas que se foram cruzando, na minha opinião, ao longo destes dez últimos anos em debates e confrontações, enriquecendo e renovando com vigor inconfundível o género documental. Parte deste fenómeno deve-se à atenção despertada pelos, internacionalmente reconhecidos, Encontros de Cinema Documental, que nas suas nove edições anuais, fiz parte da direcção da última edição, e numa nova fase de abertura do nosso país ao exterior, criaram um espaço de exibição, divulgação e competição para os documentários portugueses, bem como a possibilidade de confrontação dos realizadores nacionais com documentaristas estrangeiros através dos seus filmes ou através da sua presença nos Encontros da Malaposta. Também os diferentes canais televisivos, alguns sujeitos ao cumprimento de protocolos, outros ao cumprimento de contractos, têm-se implicado nesta causa em defesa de um espaço para o documentário português, mas muitas das vezes de forma bastante descuidada. É lógico que hoje, na era digital, começam a estar muito difusas as fronteiras técnicas de cada trabalho. Sem dúvida que os processos laboratoriais e tecnológicos têm revolucionado, influenciado e provocado novos métodos de produção e realização de documentários. Em Portugal, também, a agilidade que estes mesmos novos processos técnicos proporcionaram ao acabamento de muitos projectos documentais foi decisiva. A sucessiva, e bem sucedida, representação portuguesa de filmes e vídeos em festivais e encontros internacionais de documentário marcou o desencadeamento e respectivo nascimento do terceiro ciclo do documentário nacional. Temos nos últimos dois anos, alguns surpreendentes exemplos de exibição comercial de documentário em sala. Hoje sem dúvida que o Festival Doclisboa conquistou um lugar de excelência no panorama do documentário nacional e internacional. Também o Doc´s Kingdom procura discutir de forma profunda as tendências do cinema documental de todo o mundo em Serpa.